#3 Norte a Sul, sotaques, palavrões e confusões (do catano, digamos assim!)



Como provavelmente (não) sabem, tive uma viagem inesperada que me levou ao core do Português-Padrão, para uma Lisboa que se trata por saber menos que esperava. Esperava eu que fosse compreendido no meu estilo atípico... Que não é só sotaque, é um background cultural que trazes contigo, pela tua religião que é a tua região!
Sendo minhoto de feição e vimaranense de coração, nunca descurei o facto de que poderia conquistar o "Sulismo" com a minha dose Nortenha e Afonsina e, por mais vergonha que possa ter em enfrentar as feras, arrisquei. E arrisquei bem... Bem, digamos que... Mais ou menos, nem tudo foi assim tão simples. E para quem gosta de simplicidade, enganem-se pois existe mais do que um Portugal dentro deste pequeno mas valiosíssimo território!

Tudo começou pelo calão ou, em termos grossos como o sal, o palavreado caro a muita gente - as valentes caralhadas (não poderia pôr isso de forma menos penosa, daí o itálico) que suscitaram o interesse dos mais incautos pelas mais variadas razões e, claro, nem sempre pelas melhores: desde os convites para falar baixinho, para falar com "modos" (este é o meu modo, pá, como assim?) ou, em casos mais extremos e ditadores, permissões para sair de estabelecimentos!
Não é caso único de lisboetas mas, de um modo geral, senti-o muito mais na Capital do que nas periferias ou, até, no resto do Sul do país. Não sei por atitude snob ou, talvez, para evitarem o alastramento da grandiosidade da poética crua, peixeira e suja. Compreendo a indignação, principalmente quando invocam a educação das crianças, por muito que tenha nascido num ambiente em que o palavrão era transversal em toda a árvore genealógica (desde o avô até ao bebé... quase!), contudo é perfeitamente aceitável, a meu ver, que seja trazida parte de uma cultura a outro ponto que não é o nosso (porque, de certo modo, é um tipo de cultura mais etnográfico). Porque também admito que, apesar de estar pelo Sul há pouco mais do que um punhado de meses, trago comigo uma parte Sulista que não existia para Norte. E muitos amigos e família já mo disseram, com a sua admiração inerente a algo que é "estranho" à nossa forma de ser e estar. Mas nunca o julgaram a esse ponto (excepto, claro, que me consideram mais mouro do que português, outra controvérsia história que pouco me diz, sinceramente).
Quanto a palavras, confirmo que inventamos algumas que não são discerníveis nestes solos: carrachucho, aloquete, broeiro (!), lapada, estrugido, sapatilhas (eu sei que são "ténis" de bailado!), sostra, amarfanhar, lingrinhas, chieira, brunir, barado, basqueiro... Enfim, até livros existem acerca deste tema. E foi desde então que me apercebi que não foram, de facto, invenções!

Mas estranhe-se que até a nossa forma de ver o mundo é diferente. No que pude parcamente analisar, a noção de perigo é mais contundente... A preocupação, o medo e a precaução são, para nós, exageradas, no entanto, considero-a muito mais prolífica do que a nossa despreocupação por algo que até pode ser grave! Nesse aspecto, são pessoas com mais racionalidade, terra-a-terra e preparadas para um infortúnio. Claro, traz os seus malefícios porque a preocupação exacerbada leva a ansiedade mas, na balança da justiça, pende-se para os melhores resultados e, de facto, evitar a catástrofe súbita é muito melhor do que fomentar o frenesim do sistema nervoso!
E a comida? É outra gastronomia mas, principalmente, devo relevar o pão que, incrivelmente, é carcaça! O nosso bijou francês ou trigo cascudo não supera a grandiosidade dessa iguaria das casas que visitei ao longo destes meses, não obstante, sinto falta da panificação do nosso Domingo de Missa, o famigerado "cacete" (não confundir com os cassetetes das polícias) ou "rosca" (que é um enfeite de Natal em pão!). De qualquer modo, é bonito e delicioso apreciar desde Pastéis de Belém até aos Dom Rodrigos (que são muito bons, infelizmente muito pouco conhecidos no panorama da doçaria portuguesa)!

Falei de tão pouco que o pouco não pode deixar de incluir o sotaque. O sotaque, esse sim, torna tudo mais improdutivo e difícil na troca de ideias, pensamentos e até carinhos. O amor, a emoção e a entoação em si conflituam na guerra dos tons e da geometria do dialecto. E por muito que digam que o Norte é sinal de afabilidade e conforto comparativamente ao resto das gentes, é inegável que a forma como expressamos esse carinho é sobejamente cru, frio e directo - e isso traz ao suave palrar desta parte da Portugalidade a desconfiança e a típica máxima "Estás zangado/a comigo?". É carinho mas, mesmo assim, é agridoce. É como se os sotaques fossem facas de dois gumes, que criam um clima de instabilidade entre as pessoas de diferentes cidades, vilas e até freguesias.

Claramente somos mais do que um país. Temos o legado da língua, nunca esquecendo o Mirandês e a incrível influência que podemos ter ao, singelamente, sermos o que somos. E somos mais do que uma região, diga-se de passagem... Somos portugueses, mais ricos do que a maioria das nossas contas bancárias. E que isto só nos traga motivos de orgulho, sorrisos e calor mediterrânico porque, afinal, apesar da tempestade das confusões e diferenças grosseiras, o clima de paz é o geralmente tentamos criar para unir as pontas de um país que, acreditem, tem valor só pelo facto de existirmos de forma genuína.

Concluindo: continuem a alimentar as raízes e, quem sabe, visite a terra que coabitam. Isto porque nem tudo é Norte, Centro e Sul, mas sim um oásis de Continente e Ilhas unidos por um Atlântico Lusitano, Pessoano e Camoniano. Conquistamos isto e iremos, certamente, conquistar o coração deste Mundo.

Com um beijo português para todos vocês!

Comentários

  1. As diferenças que existem numa língua só é incrível e acho que é algo que deve ser mantido. É incrível como do Norte para o Sul a forma de falar é tão diferente, e no entanto, nenhuma está certa nem errada. É a nossa cultura e espero que assim se mantenha.
    Beijinho, Ana Rita*
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    1. É algo invejável a nível Europeu e que, acima de tudo, atiça a curiosidade de qualquer estrangeiro que, indubitavelmente, se apaixona pela variada qualidade portuguesa. Penso que cada vez valorizamos a nossa identidade - houve um tempo de menosprezo interno que revelou mostrar-se descaracterizador da Portugalidade. Afinal de contas, fomos outrora os maiores conquistadores deste Mundo!
      Beijinho. *

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  2. Mais uma minhota deste lado. E adorei a publicação. De facto são todas estas diferenças que acabam por nos complementar, a meu ver. Estudei um ano fora do Norte - não em Lisboa - e também dei conta de muitas diferenças, o sotaque, os palavões, as palavras incompreendidas (estrugidos, sapatilhas, lingrinhas, sostra, etc). Ouvi muitas vezes "falas tão mal, credo, vens mesmo lá de cima" :p
    Passado algum tempo, passei-lhes algumas das minhas expressões e trouxe as deles comigo. E é isto que se torna giro!
    Somos um país "enorme", temos muito para ensinar (para aprender também), mas somos incríveis e isso ninguém pode negar :)

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    1. A raça minhota, principalmente, é a destruidora de todo o "politicamente correcto" imposto pelas regras da boa educação - mas isso não é necessariamente mau visto que é exactamente isso que nos torna efectivamente minhotos orgulhosos! Somos encarados com estranheza que, no fundo, acaba por dissipar-se com o hábito, embora a teimosia seja algo difícil com que lidar.
      Desde que não te esqueças das tuas origens, minha cara minhota, estamos juntos na conquista deste Portugal tão grande! ;)

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  3. " Somos portugueses, mais ricos do que a maioria das nossas contas bancárias. E que isto só nos traga motivos de orgulho, sorrisos e calor mediterrânico" que bonito!!! :) e ah, eu cá acho que os pastéis de nata da fábrica da nata ou da manteigaria são beeeeem melhores que os pastéis de belém!

    r: yaaay! obrigada!! :)

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    1. Tenho mesmo que ir lá, estando mesmo pertinho de Lisboa - por vezes a fama sobe à qualidade e traz a inconsequência de "ficarem à sombra da bananeira". Pode ser que também me ofereçam uma dose grátis por ter feito uma viagem enormíssima só para provar as ditas cujas, hahahaha! Por falar em iguarias, apesar da minha admitida pouca castidade, os deliciosos Pastéis de Fátima também fazem maravilhas às línguas mais esfomeadas de açúcar e creme calórico! =)

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